Desconheço de quem seja esta imagem
Eu e minha mãe tínhamos pouco em comum, além de uma enorme capacidade de ressentimento. Nunca me livrei da sensação de que habitávamos duas bolhas particulares, transparentes e tangentes, mas impermeáveis a qualquer coisa vinda da outra, exceto à sempre renovada estranheza com que éramos capazes de nos surpreender, ora ela a mim, ora eu a ela.
Meu pai, ao contrário, só não pertencia inteiramente ao meu universo por conta do que se prolonga em mim de minha mãe e, para lhe fazer completa justiça, de sua particular severidade, que acabou por eliminar de meu caráter qualquer possibilidade de leveza. Tínhamos um olhar parecido para as coisas e falávamos a mesma língua titubeante, entrecortada de lacunas e desvãos. De um tempo doloroso de minha infância, é dele que me lembro, dia após dia, meses a fio ao meu lado, com todas as suas forças aplicadas em suprir o que as circunstâncias me negavam. Não posso dizer que fôssemos amigos, porque ele não foi capaz de me soltar por completo para o grande salto; e porque eu, por minha vez, jamais descansei em seus ombros “meu feixe de desencontros e encontros funestos”, por medo de o afligir com algo além do que ele já adivinhava em mim de patético. Quando morreu meu pai, foi como se tivesse se apagado no céu a estrela da manhã, mas permiti facilmente que ele se fosse, deixando-me de certa forma livre para experimentar, longe de seus cuidados, meu próprio quinhão de desencanto. Hoje, quando me lembro dele, quase sempre é como se pensasse numa lenda, num herói antigo de que toda a gente fala.
Quando, muito tempo depois, morreu minha mãe, experimentei a sensação de ser uma planta de que se tivesse cortado a raiz, e que estranhamente podia seguir existindo só com a parte aérea. Ao vê-la no caixão, momentos antes do sepultamento, eu, que em criança jamais tive o hábito nem o desejo de dormir em sua cama, como têm em geral as crianças, pensei em como seria doce estender-me ao seu lado e deixar-me fechar junto dela para a noite sem fim.
Hoje, nos momentos de aflição ou desamparo em que eu, como todo mundo, instintivamente invoco meus deuses domésticos, é sempre dela, nunca de meu pai que me lembro. E se a noite é de sobressaltos, sustos e presságios, só consigo dormir se finjo plenamente que o travesseiro em que me deito é o colo de minha mãe.
